“Sou uma mulher com o corpo de homem. É este meu grande drama”: Gênero e Travestismo em A confissao, de Bernardo Santareno

  • Solange Santos Santana Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA)

Resumen

Na dramaturgia de Bernardo Santareno (1920-1980), a vida é sempre permeada por embates: de um lado, as normas regulatórias da conduta social, os discursos hegemônicos; de outro, personagens singulares à margem do “ideal”, destoantes.  Entre cenas e atos, mulheres, gays, travestis, lésbicas, garotas e garotos de programa, ainda que sejam estorvadas, oprimidas e censuradas, problematizam o lugar social destinado a elas, além de questionar os códigos de conduta que regem a vida social e sexual.  Neste trabalho, debruçarei sobre o texto A confissão, dramatículo de apenas um ato que compõe o volume Os Marginais e a Revolução, escrito pelo dramaturgo português, em 1979. A partir da análise das personagens principais – a travesti Françoise e o Confessor, representante da Igreja católica –, o presente texto se divide em duas partes. Na primeira, tomo de empréstimo um importante operador de leitura para o campo dos Estudos Culturais – o termo entre-lugar (SANTIAGO, 2002) –, porque acredito que a personagem Françoise pode ser melhor compreendida como um ser singular que o corporifica, uma vez que provoca a dispersão das premissas e princípios da matriz cultural heteronormativa; além de significar a resistência do sujeito às regras, às normas que o empurram para o terreno do inumano. Na segunda parte, trato de gênero, travestismo e os investimentos para a rematerialização do corpo com o objetivo de pensar como esta personagem, em comparação com as drag-queens, aponta para o paradoxo da condição travesti de que fala, por exemplo, Miskolci e Pelúcio (2007).  Ainda que Françoise lute para ser respeitada em sua diferença, pode-se perceber uma vontade de poder contingenciada pelo discurso social inerente à matriz cultural heteronormativa. Este trabalho, pois, tem como base teórica os estudos sobre homoerotismo, gênero e a teoria queer.

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Publicado
2014-08-28
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SANTANA, Solange Santos. “Sou uma mulher com o corpo de homem. É este meu grande drama”: Gênero e Travestismo em A confissao, de Bernardo Santareno. Fronteras - ISSN 0719-4285, [S.l.], v. 1, n. 1, p. 97-115, ago. 2014. ISSN 0719-4285. Disponible en: <http://mediosymovimientossociales.cl/index.php/fronteras/article/view/66>. Fecha de acceso: 15 dic. 2017
Sección
Artículos

Palabras clave

Bernardo Santareno; Homoerotismo; Gênero; Corpo; Travestismo;